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A escrita imortalizou o ser humano. Ou pelo menos suas memórias, suas apresentações, seus medos, anseios e descobertas. A escrita de cada um de nós supera nosso ínfimo tempo de permanência na Terra, espalha nossa voz para além dos muros de nossas casas, para além das fronteiras de nossos países. E hoje mais do que em qualquer outro tempo.

Nunca se leu e escreveu tanto. Um pouco pela emergência das redes sociais e de novas formas de comunicação escrita, como Whatzapp e o Facebook.  Há também o fenômeno do academicismo (que chegou com atraso no Brasil, mas chegou), e com ele um efervescente meio acadêmico com Lattes a serem preenchidos, revistas abrindo espaços e publicações, congressos e mais congressos, enfim, uma incessante troca que aos poucos consolida-se e deixa de ser mera obrigação para que se obtenha um diploma, transformando a produção acadêmica em relevantes repositórios de descobertas. O academicismo, então, quando despido de seu caráter ensimesmado e arrogante é um grande trunfo da cultura escrita, levando a possibilidade de refletir, produzir e divulgar conhecimento a todos, de forma ampla, irrestrita e democrática.

Sob esse ponto de vista, saúdo Caminhos da Linguagem: uma visão transdisciplinar II por entendê-lo não como uma reunião de artigos de pessoas recém-egressas de um curso de pós-graduação em Letras, ávidas por registar em papel – para além de seu tempo e espaço – o resultado de suas pesquisas. A publicação desse SEGUNDO números de artigos demostra a vitalidade e o amadurecimento das autoras e autores aqui presentes e também prova que eles não buscam apenas linhas no Lattes, e sim acreditam na permanência de suas descobertas.

Dessa forma, ao me referir aos artigos de cada autor, não farei distinção entre mestres, doutores ou doutorandos, alunos ou professores. Para nós, leitores, são todos pesquisadores com algo a nos mostrar, a nos revelar. E se precisamos dar um fio condutor aos textos aqui reunidos, para além de serem oriundos de um produtivo, plural e eclético Programa de Mestrado e Doutorado em Letras, o da Uniritter, podemos dizer que quase na totalidade eles abordam a linguagem escrita, deixando revelar nas entrelinhas uma paixão e uma tentativa de apreensão dessa linguagem que imortalizou o ser humano, permitindo a ele representar o abstrato.

Sintomático disso é a grande quantidade de textos que abordam o ensino- aprendizagem da leitura, como “A leitura e o desencadeamento do processo de leitura”, de Carolina Moojen, que aborda a importância da interpretação dos signos e a dificuldade de uma incompreensão para o processo de leitura, resgatando estratégias e reafirmando a importância de um conhecimento de um mundo para a compreensão textual. E “Leitura e construção da autonomia na infância: linguagem e pensamento infantil”, de Beatriz Medeiros da Costa, que relaciona o desenvolvimento linguístico da criança com a capacidade de interpretar e se desenvolver cognitivamente, demonstrando como o contato com obras literárias ajuda a criar autonomia.

Outros artigos que também enfocam o ensino-aprendizagem, mas aí de uma língua adquirida, são “Ensino-aprendizagem de uma língua adicional: múltiplos processamentos”, de Maíra Barbarena de Mello, “Ensino-aprendizagem de língua(gem) e professor de LP como LA”, de Amelina Silveira, e “O trabalho colaborativo no ensino aprendizagem de inglês como língua adicional através da perspectiva das comunidades de prática”, de Kathy Torma.

Maíra Barbarena de Mello analisa o processo de ensino-aprendizagem de língua estrangeira entre alunos da Educação Básica, enfocando tal processo nas interações em contexto institucional. Amelina Silveira apresenta uma análise sobre o tema a partir de entrevistas de professores de português para estrangeiros, enfocando nos materiais didáticos por eles utilizados. Kathy Torma aborda a construção da aprendizagem através da participação situada que ocorre dentro das comunidades de prática para a legitimação da participação periférica, partindo de uma nova concepção de aprendizagem da socióloga e antropóloga Jean Lave e do professor Etienne Wenger.

Os materiais didáticos, foco da pesquisa de Amelina Silveira, também são objetos de estudos dos artigos de Ana Paula da Cunha Sahagoff, Denúsia Moreira de Souza e Leny Gomes.   Ana Paula Sahagoff , em “Reflexões sobre concepções de leitura:PCN e LD” trabalha com livros didáticos, investigando se as propostas de leitura de tais livros estão de acordo com as orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa. Denúsia Souza e Leny Gomes, Em “Recursos eletrônicos digitais em livros didáticos de língua e literatura do Ensino Médio”, propõem uma visão crítica sobre o uso de livros didáticos, especificamente nesse artigo investigando os sites indicados pelos livros didáticos aos estudantes de literatura.

A literatura é mote para o estudo de Martha Costa Guterrez Paz, que em “O simbolismo sonoro de Avalovara de Osman Lins, sob a ótica da filosofia tântrica” relaciona a filosofia tântrica com o romance de Osman Lins a partir das percepções sonoras, propondo uma contraposição de opostos através de uma dança rítmica que expressa a convivência inseparável entre o sagrado e o profano.

Outro tema que se faz presente, como não poderia deixar de ser em um livro contemporâneo, é a cultura digital. Ligia Sayão Lobato Coppetti, em “A influência da interação na formação e expressão de identidades em um ambiente virtual de aprendizagem”, parte da influência específica da interação na formação e expressão das identidades de indivíduos participantes de um ambiente virtual de aprendizagem, analisando especialmente as postagens nos fóruns dos alunos e seus tutores. E Valéria Brisolara, “Curtindo e compartilhando: autoria e espaço digital”, retoma estudos sobre autoria de Brthes e Foulcault, além de agregar o recente trabalho de Séan Burke, para refletir sobre o espaço do autor em ambientes digitais, especialmente nas redes sociais, onde se aplica a autoria coletiva e colaborativa.

O tema da autoria, a propósito, é também a base para o artigo de Rosane Lefebvre, que em “Questões de autoria e estilo” parte do texto de uma aluna de primeiro semestre intitulado “Quem sou eu?” para, a partir do interacionismosóciodiscurssivo,  analisar marcas linguísticas de subjetividade que se caracterizam como marcas de autoria.

Por outro viés dos estudos de autoria, o da intertextualidade, é que se apresenta o artigo de Manuel Cid Jardon, “A intertextualidade na construção dos textos jurídicos”. Jardon recupera o conceito de dialogismo de Bakhtin para demonstrar a importância do conceito de intertextualidade, de Kristeva, para as tramas discursivas dos primeiros gêneros textuais do Direito.

Também partindo do texto jurídico, mas com abordagem distinta, Katiane Covatti e Silva Serpa, em “A participação popular da Lei da Ficha Limpa à luz da Análise crítica do discurso para explorar a trajetória da Lei, observando as relações de poder envolvidas.

E para finalizar, um artigo que aborda outros tipos de linguagem além da textual, propondo estratégias para que o profissional da voz empregue no processo de comunicação interpessoal recursos da linguagem corporal, da linguagem oral, do aprimoramento vocal e do domínio da oratória, “A versatilidade da linguagem oral e as suas nuances para a comunicação humana”, de Miriam Teresinha Pinheiro da Silva.

Evidentemente que os temas aqui abordados são diversos e complexos, não sendo pretensão das autoras e autores, dos artigos e nem do livro esgotá-los. Que venham outros livros como este, movimentando e dinamizando o academicismo para além do seu estigma.

Prof. Dr. Marcelo Spalding

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